Notícias › 02/03/2018

Igreja vai ao encontro dos imigrantes venezuelanos em missão no Norte do país

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Boa Vista (RR), cinco horas da manhã, em frente à Polícia Federal (PF), logo se forma uma fila extensa, são venezuelanos aguardando para dar entrada à regulamentação dos documentos. Nas praças, debaixo das árvores, muitas pessoas dormem ao relento. Próximo à rodoviária, debaixo de uma pequena árvore, entre tantos imigrantes, um casal com duas crianças está sentado, como que vigilante. Diante deles uma pequena mala e o sol que começava a nascer.

Na estrada que liga à fronteira Venezuelana, com frequência é possível encontrar imigrantes sob o sol de 40 graus, percorrendo o trajeto para chegar a Boa Vista. No final da tarde o grupo que marcha rumo à capital de Roraima é maior.

Na fronteira, no posto da Polícia Federal o fluxo de pessoas é intenso. Segundo a PF, 80% são venezuelanos chegando ao Brasil. No total, o movimento migratório gira em torno de 1.200 pessoas por dia.

Imigrantes venezuelanos fazem fila no posto da Polícia Federal em Pacaraima

Imigrantes venezuelanos fazem fila no posto da Polícia Federal em Pacaraima

 

Em Pacaraima (RR), o abrigo de passagem que acolhe o povo indígena Warao foi preparado para receber 190 pessoas, mas hoje abriga 500. Dessas, 200 são crianças. A mãe de 15 anos, pálida e muito magra, sem força no falar está deitada na rede com os gêmeos de dois meses. Os pequenos aparentam recém-nascidos. O jovem pai Warao está no abrigo há três meses. Ele imigrou com o filho de oito anos. Com lágrimas nos olhos conta que a esposa faleceu, os pais também, e por não ter comida em seu país veio ao Brasil com o filho e uma irmã. “No Brasil a situação está bem melhor para nós”, disse.

Mulheres cozinham ao ar livre em abrigo de Pacaraima

Mulheres cozinham ao ar livre em abrigo de Pacaraima que recebe imigrantes indígenas Warao

 

A alimentação chega ao abrigo duas vezes por semana. A distribuição é feita por famílias. Eles guardam em pacotes e sacolas próximas às redes onde dormem. O preparo da alimentação é improvisado no pátio. Cada família faz um pequeno fogo e arranja as panelas para cozinhar os alimentos. São centenas de fogões improvisados e as famílias ao redor esperam a comida. Eles fazem uma alimentação diária, isso para que possam garantir uma refeição diária até que chegue a próxima remessa de alimentos para distribuição.

Há muitos voluntários que procuram amenizar o sofrimento dos imigrantes. Mas esse esforço não tem sido suficiente. Padre Jesús López Fernández, de Pacaraima, oferece cerca de 800 cafés da manhã, diariamente. Para muitas pessoas é a única refeição do dia.

Comissão missionária reunida com a Igreja Católica local, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os Missionário da Fraternidade Federação Humanitária Internacional e o Ministério Público Estadual da Comarca de Pacaraima

Comissão missionária reunida com a Igreja Católica local, representantes doe outras Igrejas, Missionário da Fraternidade Federação Humanitária Internacional e Ministério Público Estadual da Comarca de Pacaraima

 

A Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza desde o último dia (28) em Pacaraima e Boa Vista a “Missão Fronteira Venezuela” e permanece até 4 de março de 2018 visitando as famílias nos abrigos e dialogando com representantes dos poderes públicos, Igrejas, e outras lideranças locais. A Cáritas Brasileira integra este grupo missionário, a assessora nacional, Cristina dos Anjos fala de como é impactante sentir de perto as necessidades e urgências que se apresentam: “A missão tem nos mostrado o quanto precisamos trabalhar o chamado do Papa Francisco para acolher, proteger, promover e acompanhar os imigrantes. É  gritante a realidade dos venezuelanos tanto em Pacaraima como em Boa Vista. É  impactante ver, por exemplo, em Boa Vista, na praça Simón Bolívar, o numero de pessoas em barracas improvisadas, sem nenhuma infraestrutura, nem mesmo banheiros químicos. E essa é  uma das necessidades urgentes desse povo além de moradia, alimentação, saúde… Em Pacaraima as pessoas chegam na fronteira e não tem dinheiro nem para alimentação nem para pagar transporte para chegar até Boa Vista. A educação infantil é  outra grande reivindicação. Somente entre os indígenas Warao são mais de 300 crianças sem escola. A agilização da documentação é  uma outra grande necessidade. Isto possibilita que possam também trabalhar legalmente no Brasil” relata.

O objetivo da missão “Missão Fronteira Venezuela” é conhecer in locu a situação que envolve a imigração na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, em especial verificar a ocorrência do tráfico humano e elaborar um documento de análise e proposição acerca das contribuições que a Igreja pode oferecer em termos de incidência, assistência e denúncia.

O bispo de Roraima, dom Mário Antônio, afirma: “a CEPEETH traz muita esperança tanto para a diocese de Santa Elena [cidade venezuelana] quanto para nós de Roraima no sentido de promover e integrar esses nossos irmãos e irmãs. Essa visita é um momento de unção com o óleo da alegria, da ternura e da confiança e do fortalecimento para nós”, disse o bispo.

Abrigo em Pacaraima tem capacidade para acolher 150 pessoas, mas está com

Abrigo em Pacaraima tem capacidade para acolher 190 pessoas, mas está com 500, entre os abrigados uma jovem mãe com filhos gêmeos recém nascidos

 

Para a colaboradora da CEPEETH, irmã Rosita Milesi, “a visita da Comissão visa reunir informações e levar uma percepção mais clara do que se passa aqui, dos grandes desafios que há, os grandes problemas que os imigrantes enfrentam. As explorações a que são submetidos e como depois apresentar e debater a implementação de ações para fortalecer a ação da Igreja e a presença da CNBB aqui, apoiando tanto a Igreja local, como outas iniciativas contribuem para dar uma resposta de carinho de acolhida a esses migrantes, combatendo a xenofobia, a discriminação e até as medidas governamentais que são restritivas para que essas pessoas tenham uma acolhida minimamente digna. Nossa visita quer, sobretudo, olhar o tema do tráfico humano e como conseguir informações mais precisas para dar visibilidade e essa problemática”, conta a religiosa.

Reportagem: Osnilda Lima
Fotos: Felipe Larozza

 

Por Cáritas do Brasil

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