Sabor da Palavra
  • A+
  • a-

Onde molho o meu pão?


(João 13, 21-33.36-38)

Bem amigos, nos encontramos novamente, e desta vez, na Terça-feira Santa, já nos deparando com Jesus Cristo na preparação para os últimos momentos a sua vida, o que chamamos de Paixão Redentora. Na verdade, Ele viveu toda a sua vida em vista da redenção da humanidade. O Evangelho proposto para a liturgia de hoje é um fragmento do capítulo 13 de João, conhecido como preparação para a Paixão de Nosso Senhor, ou simplesmente Última Ceia, visto que os acontecimentos narrados se dão no contexto da celebração da ceia judaica da páscoa, e esta foi a derradeira vez que Jesus a comeu com os seus discípulos, antes da sua morte.
É um texto sintomático, particularmente carregado de detalhes importantes e densos de significados. Aqui iremos refletir alguns deles.

Notemos que o grupo dos doze ainda estava completo e todos eles estavam ali naquele banquete. Contudo, o redator faz questão de citar apenas três. De dois ele dá os nomes, Pedro e Judas e o outro chama apenas como “aquele que Jesus amava”. Na cena percebe-se que Simão estava um pouco mais distante de Jesus, apesar de estar à mesma mesa, por isso ele pediu ao “Discípulo Amado” que procurasse saber de Jesus quem seria o traidor (Cf. Jo. 13, 22-24), ante a surpresa despertada pela revelação do Mestre: “Em verdade, em verdade, um de vós me entregará”. Jo. 13, 21b. Quem está perto de Jesus (Discípulo amado) tem a  oportunidade de estabelecer com Ele uma ligação de coração para coração. E o “Discípulo Amado”: “estava recostado ao lado de Jesus” Jo. 13, 23. Judas parece não estar muito distante também, pois o texto nos permite imaginar que ele foi alcançado por Jesus para receber o pão embebido no molho, “então Jesus molhou um pedaço de pão e deu-o a Judas...”. Jo. 13, 26b.

São aí três maneiras de se relacionar com a Pessoa de Jesus e com o seu Mysterium. Cada uma tem suas consequências próprias, determinam a vida dos discípulos e até mesmo sinalizam personalidades.

Na versão joanina da Última Ceia Pedro é dos apóstolos, o que mais fala: “para onde vais?” Jo. 13, 36; “por que não posso seguir-te agora? Eu darei a minha vida por ti” Jo. 13, 37. São palavras que na verdade, não partem de um discernimento verdadeiro da pessoa e da missão de Jesus, coisa que os discípulos ainda não eram capazes de fazer naquele momento. Elas afloram apenas da cabeça e da compreensão humana que Pedro tinha do evento Jesus. Todavia, encerram uma grande abertura e disponibilidade para o apostolado.

O “Discípulo Amado”, bem próximo de Jesus, sentindo o pulsar do seu coração, ainda que não compreendesse toda a dimensão do Reino, com certeza fica a meditar sobre o significado de todos aqueles acontecimentos e percebe que aquela realidade escondia muito mais coisas do aquilo que ele alcançava com os ouvidos e com a visão, então deixa-se conduzir pelo Espírito. 

E Judas?  Ele está aí, mas seu coração não se conecta ao coração do Cristo, pois tinha se deixado levar pelas vaidades, das ambições que o dinheiro possibilitava e que o projeto de Jesus não permitia, “... o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o projeto de trair Jesus” Jo. 13, 2. Daí, que o seu propósito é apenas humano, não tem abertura para o seguimento como Pedro e nem sente a novidade que está em Jesus Cristo, como “O Discípulo Amado”, porque está muito ocupado com projeto pessoal imediato e se distancia daquele proposto por Jesus, o Reino de Deus. Por isso age tão prontamente na realização do seu plano, “depois de receber o pedaço de pão, Judas saiu imediatamente”. Jo. 13,30.

Nesta moldura, encontra-se o coração do texto, as palavras de Jesus: “É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho” Jo. 13, 26a. “O que tens de fazer, executa-o depressa” Jo. 13, 27b. O pão é um elemento rico de significados. Com o Vinho, sinal de vida, de vida eterna, alimento para a caminhada, para o seguimento. (Corpo e Sangue de Jesus). Dizemos isto porque embora João não fale da Instituição da Eucaristia na Última Ceia, os sinóticos e o apóstolo Paulo, fazem questão de informar que foi ali que Cristo Se deu como pão para a vida do mundo.  (cf. Mt. 26 17-29; Mc. 14, 12-25; Lc. 22, 7-20; 1Cor. 11, 23-26) Por outro lado, pão embebido no molho é sinal de traição, de morte, temos aqui uma mudança radical de perspectiva: molhado no vinagre do egoísmo, da ambição, da fraqueza de espírito, da sedução do dinheiro, da busca de poder e de realização pessoal a todo custo, não poderia dar em outro coisa mesmo, senão em traição e explicitação de um projeto de morte. 

Nós, seres humanos, discípulos(as) dos tempos atuais não somos apenas um destes personagens, não agimos puramente como “O Discípulo Amado”, nem como Pedro e nem mesmo como Judas. Somos na verdade uma mistura dos três, e nossas atitudes no cotidiano vão aflorando ora um, ora outro, com mais ou menos  pigmentação. Desta forma, é salutar e oportuna uma reflexão exortativa no sentido de que é fundamental tomarmos cuidado afim de que as vaidades que o mundo oferece, o egoísmo, as ambições, a busca do poder pelo poder simplesmente, a sedução da mentira e do dinheiro, não sejam o molho a estragar o pão que recebemos. Cada um de nós recebe o seu pedaço de pão, mas a decisão de fazer dele alimento na jornada ou perdição, molhá-lo no Sangue de Cristo ou no molho do mundo é nossa. Haverá sempre um caminho seguro: recostar no Coração de Cristo como fez o Discípulo Amado, ou ainda, confiar em quem estar recostado nele, como fez Pedro. No fundo não é necessário compreender tudo, o mais importante é estar pronto para o seguimento e para fazer brilhar no mundo a glória de Cristo.

Desejamos a todos(as) uma Semana Santa abençoada e frutuosa. Que a celebração dos mistérios da morte e ressurreição do Senhor, nos ajude optar sempre por molhar o nosso pão no seu sangue. Até a próxima terça.

Texto:Nilton Lima