Sabor da Palavra
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Não deixe que lhes roubem a ESPERANÇA!

João 20, 11-18

Terça-feira da oitava pascal. Esta semana que a Igreja celebra como um grande dia de páscoa é como se fosse um dia em oito estágios, daí o nome oitava. Como em todo o período pascal, a atmosfera é de ressurreição. Todavia, nestes dias sente-se mais fortemente o cheiro do evento fundante da nossa fé: a vitória de Jesus sobre a morte.
O Evangelho litúrgico de hoje é o relato de uma das aparições de Jesus após a ressurreição, segundo a comunidade de João, aquela em que Ele apareceu a Maria Madalena (cf. Jo. 20,1).
A cena se inicia com Madalena chorando do lado de fora do túmulo, passa pelo pequeno diálogo com os anjos, e conclui-se com o diálogo revelador desta mulher com Jesus. São muitos elementos que revelam a estrutura da comunidade dos discípulos de Jesus na sua organização eclesial no período pós ressureição. O que mais nos chama a atenção e que será o alvo da nossa reflexão é a semente de esperança escondida no chão destes relatos. Quantas vezes a realidade se apresenta dura e dá a impressão de que tudo acabou, que a vida não tem mais sentido, que é o fim de um sonho: decepção, fome, desgraças, famílias destruídas, jovens no mundo das drogas, corrupção que mina os direitos do povo... Parece que a morte venceu. Nestes momentos onde buscar a esperança? Por onde recomeçar? O encontro com um amigo querido ajuda a mudar tudo, dá novo alento e as coisas começam a ter um novo significado. Foi esta experiência que Maria Madalena fez no amanhecer daquele dia, o primeiro da sua nova história.

No primeiro dia da semana, bem de madrugada .... (cf. Jo 20,1) Esta parte do Evangelho não está na liturgia de hoje, mas é importante para a compreensão da parte seguinte.  A ida de Maria ao sepulcro não se dá por acaso e com certeza nem mesmo como um simples gesto de piedade. Impulsionada por um sentimento de saudade momentânea, o gesto desta mulher completa uma travessia e inicia um novo processo. Completa uma travessia porque ela não é uma estranha no grupo de Jesus, foi discípula e há quem diga até que era a líder do ramo feminino do discipulado.  Inicia um novo processo porque dá dinamismo ao projeto, recebendo do próprio Jesus o mandato missionário - o que depois chamaríamos de evangelização – “Mas vá dizer aos meus irmãos...” (Jo. 20,17c).

Toda a dinâmica interior que reacende a esperança no coração de Maria Madalena tem seu ponto de partida no ouvir. Quando ela ouve: Maria... deve ter pensado: “só Jesus pronuncia meu nome assim”. Então a dúvida é imediatamente substituída por uma profissão de fé: “Rabuni” (que quer dizer mestre). Esta não é apenas uma palavra, é uma resposta, é afirmação de que valeu apena acreditar.  Não temos aqui nenhum exercício intelectual, temos num piscar de olhos, uma releitura da Vida de Cristo e das vezes que ele apontou para a ressurreição. Temos um abandonar-se no projeto do ressuscitado e o desejo de reconstruir a esperança. É como se dissesse: meu Senhor tu estás vivo, podemos continuar e com a certeza de estás que para sempre conosco.

É por isso, disseram Juan Mateos e Fernando Camacho, no seu livro “Evangelho: figuras e símbolos”: “Maria Madalena é [...] figura da nova comunidade, que tem sua origem na cruz de Jesus, de onde flui o Espírito Santo. Esta nova comunidade tem com Jesus a relação de amor e de fidelidade que que os profetas havia formulado em termos nupciais”. (MATEOS, J.  e CAMACHO, F. 100)

Não basta ver Jesus com os olhos da carne, para conhecer Jesus, não se pode ficar apegado ao passado. O ressuscitado é o mesmo crucificado mas apresentada uma novidade que aponta para o céu. Ainda não subi...
Em nossos dias precisamos muito de Madalenas, de homens e mulheres que atuem como sinais de esperança atentos à voz de Cristo, esta é uma das características do discipulado. Aprender a ver Jesus não só com os olhos da carne. Ele nos chama pelo nome e de maneira personalizada e a resposta, que parte de um reconhecimento e gera identidade com Ele, deve impulsionar na direção do outro(a) ... vá dizer aos meus irmãos...  O Senhor está vivo e está no meio de nós. Por isso como disse o papa Francisco, na homilia de Domingo de Ramos: “Não deixem que lhes roubem a esperança, por favor, não deixem jamais que lhes tirem a esperança”. Levem a “alegria” de Cristo “no mundo todo, até às periferias”. Não se deixem iludir pela “sede do dinheiro”: “ninguém o pode levar consigo, o dinheiro será preciso deixá-lo”. Até a próxima terça-feira.

Texto: Nilton Lima