Sabor da Palavra
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Seguir a Cristo na Gratuidade

(Marcos 10, 28-31)

Na semana passada refletimos sobre o seguimento de Jesus, a partir da lógica do irmão menor e do foco naquilo que é essencial. Hoje, o tema do seguimento continua, mas vamos refleti-lo a partir de outro ponto de vista, o da gratuidade e da esperança salvífica. Segundo este aspecto o seguimento de Jesus não deve ter em vista  apenas as recompensas deste mundo, mesmo se aqui já experimentamos como antegozo os frutos desta nossa livre decisão.
O ponto central do Evangelho que estamos refletindo hoje são as palavras de Jesus: “Em verdade eu vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida - [...], com perseguições – e, no mundo futuro, a vida eterna. (Mc. 10,30). Este pequeno discurso de Jesus é uma resposta à provocação de Pedro, ao alegar  que os discípulos haviam deixado tudo para segui-Lo. (cf. Mc. 10, 28) O texto escolhido para a liturgia de hoje é bem pequeno, é verdade. Porém, ele é a conclusão de uma perícope (um extrato de um texto formando uma unidade ou um pensamento coerente. Em geral, faz referências a passagens bíblicas, e é muito utilizado nas liturgias e nos serviços religiosos  e no estudo bíblico) maior, (Mc. 10, 17-31) na qual Jesus fala do Reino de Deus(vida eterna) e de como proceder para entrar nele; seguir Jesus de maneira gratuita é uma das condições para se alcançar a vida eterna.
É natural do espírito humano exigir recompensa, nem que seja um “obrigado”; e Pedro não foge à regra. Ao expressar a sua inquietação, ele age como se perguntasse a Jesus se ele e os outros,  apóstolos, teriam direito a entrar nesse Reino de Deus, pelo fato de terem deixado tudo para trás e se tornarem caminheiros com o Mestre. Esta indagação do líder dos apóstolos encerra, ainda que de  modo velado, uma cobrança pelo fato de até aquela altura ainda não terem vislumbrado as benécias prometidas. A resposta de Jesus é no sentido de ajudar os discípulos a compreenderem que a recompensa consiste na verdade em uma nova maneira de “ter”, de se relacionar. Trata-se de mudar de um “ter”, no sentido de possuir de forma possessiva, para um “estar”, que significa pertença, significando o pertencer ao projeto do Reino de Deus, ao modo do “filho tu está sempre comigo, tudo que é meu é seu,” de Lucas. (Lc. 15, 31) Pai, mãe, filhos, irmãos, irmãs são todos filhos de Deus, amados por Jesus, que ultrapassa as barreiras do parentesco legal e faz com que  todos sejam irmãos e irmãs, na caminhada. De tal maneira, que o fato de estar com Jesus já significa receber a recompensa neste mundo. O diferencial é que ninguém, pelo simples fato de seguir o mestre, estará livre das perseguições. Aliás, elas serão inevitáveis na vida dos seguidores fiéis, uma vez que o anúncio do Evangelho incomodará os poderosos e inimigos do Reino. Isto quer dizer que se alguém se diz seguidor(a) de Jesus Cristo, mas nunca foi incomodado ou não tenha passado por experiências de perseguições, deve se perguntar pelo grau de fidelidade e comprometimento deste seu seguimento e, até que ponto estar sendo um discípulo do Homem de Nazaré.

Entendemos assim que a vocação cristã é um chamado para ajudar na construção do Reino de Deus. A CNBB expressou esta compreensão de chamado para o seguimento de Cristo, relacionado diretamente à construção do Reino de Deus, tendo como base relações mais amplas, para muito além dos laços sanguíneos no seu doc. 104. (Documento de estudo, COMUNIDADE DE COMUNIDADES: uma nova paróquia, resultado da 51ª Assembléia Geral, 2013). No número 18 diz-se o seguinte: “O Reino de Deus anunciado por Jesus é a expressão do amor do Pai. É o dom de Deus que precisa ser acolhido pela humanidade. Tal acolhida supõe novas relações entre as pessoas, na comunidade e na sociedade.

Do caminho percorrido até aqui nesta reflexão, pode-se facilmente chegar à compreensão da Sequela Christi( SEGUIMENTO DE CRISTO - seguir os passos de Cristo com ações e decisões) e de sua variação a Imitatio Christi(IMITAÇÃO DE CRISTO - reproduzir os traços pessoais da vida de Cristo, como modelo para a vida cristã). A Sequela Christi é ainda em nossos dias elemento central da espiritualidade dos(as) seguidores(as). Todos os predicados da vida cristã como o amor fraterno, o serviço, a vida de oração, a escuta e prática da Palavra de Deus, a luta pela justiça, a prática da caridade, a defesa dos mais pobres... encontram seu verdadeiro significado exatamente no seguimento de Cristo. Desta forma a Sequela Christi assume também características próprias da Imitatio Christi.

Jesus Cristo ainda hoje chama homens e mulheres para continuar a construção do Reino de Deus. Esta convocação é universal e particular ao mesmo tempo. Universal, porque todos os homens e mulheres, sem distinção, são chamados a deixar tudo por causa de Cristo e de seu Evangelho. É também particular, por que cada pessoa é chamada de maneira individual e personalizada, para responder à sua própria vocação. O(a) cristão(a) é por natureza um vocacionado e, por isso mesmo, tem o dever de responder com prontidão, gratuidade e liberdade ao seu chamado e se engajar na transformação do mundo a partir da realidade em que vive, pois vocação e missão constituem a essência do(a) discípulo(a) missionário(a) segundo o que afirma o decreto Ad Gentes, do Concílio Vaticano II: “Cada discípulo de Cristo tem sua parte na tarefa de propagar a fé”. (AG 23). Portanto, sempre é hora de deixar para trás o que nos impede de fazer a adesão livre e consciente ao Reino de Deus, por o pé na estrada com um coração gratuito e confiança nos bens celestiais.

Nilton Lima

Diocese de Viana