Sabor da Palavra
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O Reino de Deus nas nossas mãos

No dia de São Barnabé, nos encontramos com Jesus dando instruções aos doze, logo após a constituição do grupo. Ao dar o ensinamento a respeito de como deveria sua vida e prática de ora em diante, destaca o reino de Deus. (Mateus chama de Reino dos céus)  Aliás, esta centralidade do Reino ocupará todo ensinamento e atividade de Jesus Cristo, porque  “o Reino de Deus anunciado por Jesus é a expressão do amor do Pai” (CNBB, 104, nº 18 – estudos). É exatamente por isso que os seus sinais mais são: cura de doenças, ressurreição dos mortos, purificação dos leprosos, gratuidade e generosidade, desprendimento, acolhida e, acima de tudo, paz. (cf. Mt. 10, 8-13). (As doenças, de maneira especial a lepra era consideradas castigo de Deus e provocavam afastamento da vida social, religiosa e afastamento da salvação, daí a necessidade dos ritos de purificação). Jesus aproxima as pessoas do Reino de Deus e diz: “em vosso caminho, anunciai: o Reino dos céus está próximo”. (Mt. 10, 7). Isto significa que o coração do anúncio missionário é o anúncio do Reino e que ele não tem fronteiras  seja, é para todos, porque ele não é o resultado de normas, preceitos, sacrifícios... que os pobres tinham dificuldades de cumprir sem se empobreceram ainda mais.
Quanta alegria devem ter sentido aqueles homens ao escutar esta boa nova, começam a compreender que o Reino acontece na vida, antecipando a vida no céu. A nova realidade vivida pelos discípulos é uma mudança radical da maneira de se relacionar com o outro e com Deus. A CNBB sintetizou esta compreensão no seu mais novo documento, sobre a renovação da estrutura paroquial.( estudos da CNBB, 104). Especialmente nos números de 17 a 20, quando fala da novidade do Reino e de um novo estilo de vida comunitária, o texto reafirma que apostolado consiste no anúncio do Reino, uma vez que Jesus “convidou os discípulos e constituiu os doze apóstolos para anunciarem o Reino de Deus. isso significou uma nova proposta de vida” (CNBB, 104, nº 17) e  o documento continua dizendo que trata-se de uma convivência renovada, que se transforma em comunidade na qual   todos são irmãos, há igualdade homem e mulher,  há partilha de bens, e todos relacionam-se como amigos e não como empregados, o poder é exercido como serviço, se faz oração em comum e se vive a alegria e a que a comunidade recebe  o poder de perdoar e reconciliar. (cf. nº 17). Daí, compreendemos que o Reino dos céus é um jeito diferente de viver a vida. Isto já é o início da resposta a um questionamento inevitável: se o Reino dos céus está próximo, o que significa esse “próximo”? Em  que dimensão devemos compreende-lo? A nós parece que a explicação mais plausível, a partir do próprio Evangelho é a que ultrapassa a simples realidade cronológica e/ou geográfica. “Próximo”, então significa “com”. O Reino dos Céus já está  com vocês, significa dizer que se insere na dimensão existencial, no nível das relações com o outro, é um “dom de Deus que precisa ser acolhido pela humanidade. Tal acolhida supõe novas relações entre as pessoas, na comunidade e na sociedade.” (CNBB, 104, nº 18)

O Reino dos céus de que fala Jesus não acontece de vez para todas, mas vai acontecendo na caminhada e transformando a realidade, é o caminho do seguimento. As comunidades logo na primeira hora compreenderam este seguimento de formas variadas, Na primeira leitura, Atos dos Apóstolos, cap. 11, há sinais de que o Reino estava acontecendo como fidelidade a Jesus Cristo e como impulso missionário.
Hoje não deve ser diferente. O acontecer do Reino exige esforço da comunidade, pois ele Dom, mas é também tarefa. O Senhor fez questão de os seus discípulos se participantes dessa realidade nova, de maneira que cada um carregasse consigo as sementes deste Reino. A Igreja está cheia de exemplos de dedicação a este Reino, desde aqueles que deixam o conforto dos seus lares para ser presença de Jesus nas ruas das grandes cidades, os que se dedicam à recuperação de que caiu no mundo das drogas e do álcool, como a Fazenda da Esperança; aqueles e aquelas que se engajam na luta por justiça; os tantos que se devotam a oração por um mundo melhor. São muitos os exemplos. Podemos pegar também o exemplo de São Barnabé, companheiro de Paulo na difusão do Reino nos mais diversos lugares. Mas percebemos que ainda falta muito, principalmente no interior das comunidades tradicionais, que são chamadas agora a fazerem uma profunda renovação, a fim de se tornarem realmente expressão do Reino de Deus pela hospitalidade, pela partilha, pela comunhão de mesa e pela acolhida ao excluídos. (cf. CNBB, 104, nº 19).
Estamos no caminho, rezando e trabalhando pelo grande mutirão do Reino de Deus, convidando cada vez mais pessoas para participar do cordão na certa de “O Reino implica uma nova maneira de viver e de conviver, nascida da Boa-Nova que Jesus anunciou”. (CNBB, 104, nº 20).  Porque o Reino dos céus é dinâmico, ele atrai e envia. Ele é missão.

Texto: Nilton Lima
Diocese de Viana.