Palavra do Pastor
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II THEOTOKOS - FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA

II THEOTOKOS – SANTA LUZIA, 17 DE AGOSTO –  FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA

Tema: Maria e o bem comum

Iluminação bíblica: Lc 1,51-53: Ação de Deus em favor dos pobres e Am 8,4-6: Denúncia da exploração dos pobres e humildes

O Theotokos (significa: portadora de Deus = Mãe de Deus) é um acontecimento vivido pela Legião de Maria da diocese de Viana, em uma paróquia previamente escolhida e empenhada na preparação e execução do evento, onde legionárias e legionários de toda diocese se concentram em Missão, como diz o canto: “Legio Mariae, in missionem. De porta em porta, de rua em rua, com o Evangelho do Senhor nas mãos. De porta em porta, de rua em rua, a Legião cumpre sua missão”.

O I Theotokos foi realizado em Santa Inês, dia 18 de agosto de 2013, Festa da Assunção de Maria, com tema: “Maria, Mãe de Deus”. O tema, definido pelo bispo diocesano, do II Theotokos quer unir a vivencia da fé e a cidadania, tendo em vista a eminência das eleições: “Maria e o bem comum”. Os textos bíblicos iluminativos da missão em família, despertam em nós a ação de Deus em favor dos pobres e humildes, que não podem ser enganados, a partir de Maria e do profeta Amós.

MARIA. “Quem olha pra Maria, com olhar de Deus, dá a nossa Senhora, o lugar que Deus lhe Deus”. O privilégio de Maria, preferida entre todas as mulheres, diante de Deus não vem de um olhar excludente, mas globalizante. O poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra e de ti sairá o Emanuel, Deus conosco. Em Maria, a iniciativa foi de Deus, cabendo-lhe a resposta. No seu “sim” está o querer de Deus, unido a duas vontades: de Deus e da virgem Maria. Dela as legionárias e legionários sabem falar muito bem e a tem como intercessora, desde Caná, na Galiléia.

A relação com o bem das pessoas, das circunstâncias, dos pobres e humildes, e de toda humanidade está muito presente. Quem não se recorda da visita à sua prima Isabel, necessitada, pois estava no sexto mês de gravidez e era anciã?. Quem não lembra da confiança de Maria, junto a seu Filho, na festa de casamento? Quem não tem em mente que Maria cantou: derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes e... saciou de bens os famintos? Ainda ampliou a tenda quando disse que a misericórdia de Deus se estende, de geração a geração, sobre os que o temem.

AMÓS. O texto do profeta Amós é muito incisivo na defesa do pobre e do humilde e, sendo ele homem do campo, denuncia a exploração dos aproveitadores da cidade que se sentem incomodados com feriado e até mesmo com o dia santo, o sábado. Para eles o que interessa é ganhar dinheiro, lucrar. Amós, denuncia que os comerciantes diminuem medidas, aumentam preço, adulteram balanças e até o refugo do trigo é vendido para os pobres. Como se não bastasse, compram os infelizes por dinheiro e os pobres por um par de sandálias. Os aproveitadores, estão na mira do profeta, que não suporta exploração.

JESUS CRISTO. Jesus, olhando a multidão, sentiu compaixão, pois, estava faminta e mandou seus discípulos dar-lhe de comer. O pouco que tinha, organizado e distribuído, saciou a todos e sobrou ainda. O seu amor ao Reino passa pelo amor às pessoas. Durante a vida pública, teve olhar atento às crianças, às mulheres, aos leprosos, aos doentes, aos estrangeiros, aos órfãos e às viúvas, aos pecadores e endemoninhados... Seu foco principal era a vontade do Pai, seu Reino. Mas, o ser humano era de suma importância, ocupava lugar primordial na mensagem e nas atitudes do Mestre e bom Pastor, a ponto de afirmar: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”. (Jo 10,10)

A quem se deixava tocar ao coração, Jesus Cristo, suscitava conversão, uma vida nova com gestos imensos de gratidão, gerando seguimento e atitudes louváveis como a de Zaqueu – doou de seus bens e reparou a usurpação do que era dos outros. As mulheres das quais fala Lucas no seu Evangelho (8,2s) que com suas posses ajudavam a Jesus e aos seus discípulos com os bens que possuíam, colocavam-se a serviço do Reino, não só com suas vidas, mas também com suas riquezas.

Jesus reconhece a organização social e econômica do seu tempo. Mandou pagar impostos do Templo por si e pelos seus, Pedro, para não causar escândalo (cf. Mt 17,24-27; 22,17-21). Porém, não abre mão daquilo que é de Deus, que pertence ao Senhor, a dignidade da vida: “Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 20s). Assim como rejeita categoricamente a interrupção do anúncio do Reino, pretendido por Herodes e sua corte: “Dizei àquela raposa que continuarei anunciando o Reino de Deus”.

OS PRIMEIROS CRISTÃOS.  O jeito de ser de Cristo é seguido pelos primeiros cristãos a ponto de não haver entre eles necessitados, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e depositavam o que tinham aos pés dos discípulos (At 4,32-35) e estes tinham a missão de distribuir os proventos aos pobres, até instituírem gente pra fazer isso, os diáconos (At 6,1-6). A solidariedade ia além da comunidade local, pois a coleta incentivada por Paulo em favor da Igreja de Jerusalém, diz muito desse amor universal.

Há de se notar ainda que os cristãos socorriam as viúvas, os órfãos, os estrangeiros, os presos e parte, senão no todo, do que a comunidade recebia era destinada aos pobres. O ofertório na celebração servia pra isso. Não de juntar dinheiro, mas de amar os necessitados, vindo ao encontro de suas necessidades. Faz parte do ser cristão e nos levará para o céu, o amor aos pobres: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino, que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes me ver”.(Mt25,34s)

PADRES DA IGREJA. A Didaqué, um texto antigo tido como Instrução dos Apóstolos, escrito entre o final do século I e primeira metade do II século, que servia para ensinar aos catecúmenos os caminhos da vida cristã, assim fala dos bens da criação e da esmola: “Dê a quem pede a você e não peça para devolver, pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a todos...Que a sua esmola fique suando nas mãos, até que você saiba par quem a está dando” (1, 5-6). Policarpo, bispo de Esmirna, padroeiro dos idosos, diz que “quando se pode fazer o bem, não se deve deixar pra depois, porque a esmola liberta da morte”.

São Basílio Magno, bispo de Cesaréia, na homilia sobre Lucas 12, falando do avarento, diz: “Leva no coração o tormento, a ansiedade o aflige, porque aquilo que a outros torna alegres, consome pela preocupação o avaro. A casa está abarrotada de tudo, porém, ele não se alegra”. (1) Mais ainda: “A ideia da avareza é a mais detestável de todas; nem mesmo aquilo que vai estragar-se não quer distribuir com os necessitados. Assim são os ricos. Pois, apoderando-se primeiro do que é de todos, tudo tomam para si por uma falsa ideia. Se cada um tirasse para si o que lhe é necessário e entregasse ao indigente o que não precisasse, ninguém seria rico, ninguém pobre”. (2)

O bispo, mais politizado da Capadócia, assevera: “O pão que tu reténs pertence ao faminto, o manto que guardas no armário é de quem está nu; os sapatos que apodrecem em tua casa pertencem ao descalço; o dinheiro que tens enterrado é do necessitado. Porque tantos são aqueles aos quais fazes injustiças, quantos aqueles que poderias socorrer”. (7) Em São Basílio temos a união fé e vida, é claro que a transformação da sociedade, de forma a mexer nas estruturas do Estado, não está ainda tão presente quanto nos nossos dias e que todos devemos estar abertos à construção da nova sociedade.

VATICANO II. A Igreja esta celebrando os 50 anos deste grande Concílio, um novo sopro do Espírito Santo. A Constituição Gaudium et Spes nos diz que “cada vez mais se adquire uma consciência mais clara da injustiça e da má distribuição dos bens, passando a exigir aquilo de que se julgam privados”. (n.9). E falando do bem comum, tema do II Theotokos, afirma: “O bem comum é a soma das condições sociais que permite, tanto às pessoas como aos grupos humanos, alcançar mais fácil e plenamente a perfeição a que são chamados. A crescente interdependência entre os seres humanos, que se estende progressivamente ao mundo inteiro, torna o bem comum cada vez mais universal, abrangendo direitos e deveres em relação a todo o gênero humano. Cada grupo deve considerar as necessidades e as legítimas aspirações dos outros, e de toda a família humana”. (n.26).

Ainda nos diz a Igreja, atravez deste documento que “O ser humano tem direito a tudo de que necessita para levar uma vida verdadeiramente humana: alimento, roupa, moradia, liberdade na escolha do seu estado de vida e na constituição de sua família, educação, trabalho, reputação, respeito, informação objetiva, liberdade de agir segundo a norma de sua consciência reta, privacidade e gozo de uma justa liberdade, inclusive religiosa”.(idem). “Numa ordem social justa, o bem das pessoas passa na frente do progresso, de tal forma que a ordem das coisas está sujeita ao bem das pessoas, e não vice-versa”(idem). Por isso “Deve-se, pois, estimular todas as iniciativas em favor do bem comum. Merecem louvores os países em que a maioria dos cidadãos participa livremente da coisa pública...”(n.31).

Mesmo sabendo que “A missão própria que Cristo confiou à sua Igreja não é de ordem política, econômica ou social, mas religiosa, da qual, entretanto, emanam luz e forças que servem para fundamentar e fortalecer a comunidade humana, de acordo com a lei divina. Dependendo das circunstâncias, a Igreja pode, e em certos casos deve, suscitar iniciativas em favor de todos, especialmente dos pobres, como o são as obras de misericórdia”. (n.41). “A comunidade política e a Igreja, em suas respectivas esferas de ação, são independentes e autônomas. As duas estão a serviço da mesma vocação pessoal do ser humano, embora a títulos diversos. Este serviço será tanto mais eficaz, para o bem de todos, quando houver cooperação entre ambas, de acordo com as circunstâncias de tempo e lugar”.(n.73)

AMÉRICA LATINA. O Concílio Vaticano II foi acolhido na América Latina na Conferência de Madellin, 1968, na Colombia, e a preocupação pela promoção humana chega à nós. Nas Orientações Pastorais, os bispos latinoamericanos dizem que é exigência da caridade “a consciência do dever de solidariedade para com os pobres” e que “a promoção humana há de ser a linha de nossa ação em favor do pobre, respeitando sua dignidade pessoal, ensinando-lhe a ajudar-se a si mesmo”(nn.10.12). Mas, foi em Puebla, no México, 1979, que a Igreja na América Latina fez sua Opção Preferencial pelos Pobres: “...professamos também que toda a vida humana merece por si mesma, em qualquer circunstância, sua dignificação; e que toda convivência humana tem que fundar-se no bem comum, que consiste na realização cada vez mais fraterna da dignidade comum e que exige não se instrumentalizem uns em favor de outros e que todos estejam dispostos a sacrificar até seus bens particulares”.(n.317).

A Conferência dos Bispos, em Puebla, é muito incisiva e insiste no muito que ainda precisamos fazer: “Na Igreja da América Latina, nem todos nos temos comprometido bastante com os pobres; nem sempre nos preocupamos com eles e somos com eles solidários. O serviço do pobre exige, de fato, uma conversão e purificação constante, em todos os cristãos, para conseguir-se uma identificação cada dia mais plena com Cristo pobre e com os pobres”.(n.1140). Continuando a caminhada solidária e eficaz com os pobres, numa caridade libertadora, a última Conferência dos Bispos latino-americanos, realizada em Aparecida, em maio de 2007, aberta pelo Papa Bento XVI, afirma que “é tarefa da Igreja ajudar com a pregação, a catequese, a denúncia e o testemunho do amor e da justiça, para que se despertem na sociedade as forças espirituais necessárias e se desenvolvam os valores sociais”.(n.385) Assim sendo diz o próprio Papa que a Igreja, “não pode nem deve colocar-se à margem na luta pela justiça”.(DCE 28)

O Documento de Aparecida fala várias vezes da necessidade que se tem de zelar pela consciência do bem comum que tem muito a ver com o bem-estar para que o individualismo, a exploração, o laicisismo, as injustiça, a indiferença, não destrua a vida plena, integral, portanto das pessoas, da comunidade humana, do meio ambiente e dos povos. Em vista da globalização da solidariedade, os bispos propõem: “Apoiar a participação da sociedade civil para a re-orientação e consequente reabilitação ética da política. Por isso, são muito importantes os espaços de participação da sociedade civil para a vigência da democracia, uma verdadeira economia solidária e um desenvolvimento integral, solidário e sustentável”. (n.406a). E também, “Chamar todos os homens e mulheres de boa vontade a colocar em prática princípios fundamentais como o bem comum (a casa é de todos), a subsidiariedade, a solidariedade intergerencial e intragerencial”. (n.406e).

CNBB. As Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil que estamos vivendo, nos provoca como discípulos missionários a proclamar o Reino em vista da plenitude da vida, em vista do Reino definitivo, mas ao mesmo tempo nos alerta e compromete com a causa do pobre: “Os pobres e excluídos são sujeitos da evangelização e da promoção humana integral. Em tudo isso, a Igreja reconhece a importância da atuação no mundo da política e assim incentiva os leigos e leigas à participação ativa e efetiva nos diversos setores diretamente voltados para a construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário”.(n.71). As Diretrizes nos impelem ainda para o respeito as diferenças, superando preconceitos, e abraçando as iniciativas em benefício dos direitos das populações indígenas e quilombolas, da preservação da natureza e o cuidado com a ecologia humana. (cf. nn.113 e 114)

Quanto a participação social e política dos cristãos leigos e leigas, a CNBB insiste: “Incentive-se a participação, ativa e consciente, nos Conselhos de Direitos. Quer promovendo, quer se unindo a outras iniciativas, incentive-se a participação em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar, com gestos concretos, a convivência pacífica, em meio a uma sociedade marcada por violência, que banaliza a vida. Sobretudo no mundo de hoje, com a crise da democracia representativa, cresce a importância e, portanto, a necessidade da colaboração da Igreja, no fortalecimento da sociedade civil, na participação em iniciativas de controle social, bem como no serviço em prol da unidade e fraternidade dos povos, especialmente da América Latina e do Caribe, como sinal efetivo de paz e reconciliação”. (n.115). Fala ainda da busca de políticas públicas “no sentido de reivindicar democraticamente a implantação e a execução dessas políticas voltadas para a defesa e a promoção da vida e do bem comum, segundo a Doutrina social da Igreja”. (n.116).

No Documento de número 100, aprovado este ano na Assembleia dos Bispos, que trata da Nova Paróquia, como rede de comunidades, em vista da conversão pastoral, está presente a preocupação com o bem comum: “A comunidade há de marcar presença também diante dos grandes desafios da humanidade: defesa da vida, ecologia, ética na política, economia solidária e cultura de paz. Por isso a paróquia, como comunidade servidora e protetora da vida, tem condições de favorecer a educação para o pleno exercício da cidadania e implementar uma pastoral em defesa da integridade da Terra e do cuidado com a biodiversidade”. (n.285).

PAPA FRANCISCO. O Papa Francisco, desde o primeiro momento do seu pontificado nos deu exemplo de humildade e firmeza no anúncio do Reino e solidariedade com os pobres. Uma Igreja, pobre, a serviço do Evangelho e parceira dos excluídos faz parte de seus sonhos. Na sua primeira Carta Encíclica, Sobre a Fé, Lumen Fidei, inspirado pela carta aos Hebreus (11,7ss) nos diz que “A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus”. (n.50). Prossegue afirmando que “A fé faz compreender a arquitetura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum”. (n.70)

Como bom latino americano, na Exortação Apostólica, Sobre a Alegria do Evangelho, nos faz assumir postura diante de desafios que o mundo atual nos impõe e que ele chama de desafios: “A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida”. (n.52). São importantes aqui também, os nãos do Papa: não a uma economia da exclusão, não à nova idolatria do dinheiro, não a um dinheiro que governa em vez de servir, não à desigualdade social que gera violência. (cf. n.53-60).

O nosso tema ‘bem comum’, com a paz social, o Santo Padre discorre nos números 217-237, da Exortação, destacando quatro princípios norteadores: O tempo é superior ao espaço, a unidade prevalece sobre o conflito, a realidade é mais importante do que a ideia e o todo é superior à parte. Segundo Papa Francisco, “As reivindicações sociais, que têm a ver com a distribuição das entradas, a inclusão social dos pobres e os direitos humanos não podem ser sufocados com o pretexto de construir consenso de escritório ou uma paz efêmera para uma minoria feliz. A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão acima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios. Quando estes valores são afetados, se faz necessária uma voz profética”. (n.218). Citando a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos é mais enérgico ainda: “ser cidadão fiel é uma virtude, e a participação na vida política é uma obrigação moral”. (n.220).

EM VIAS DE CONCLUSÃO. O Papa Bento XVI, falando sobre a Caridade na Verdade, Encíclica Caritas in Veritate, nos lembra dois princípios orientadores da caridade: a justiça e o bem comum (n.6); falando do bem comum diz que “Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele ‘nós todos’, formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade”. (n.7). Também na atividade econômica, não se pode reduzir tudo a uma lógica mercantil, diz Bento, “esta há de ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política”. (n.36). O agir econômico não pode estar separado do agir político, pois a função seria buscar a justiça através da redistribuição, conclui o Papa. Mas foi o Papa Paulo VI quem cunhou a frase lapidar da relação caridade e política: “A política é uma forma sublime do exercício da caridade”.

Em via de conclusão se pode dizer que o cântico profético de Maria encontrou guarida na vida da Igreja, particularmente na América Latinam onde o povo é sedento de solidariedade, distribuição de renda e alternância de poder; assim como sonha com a superação da pobreza e da miséria fruto da conversão radial da cultura da exploração e da concentração dos bens, nas mãos de poucos, mas também do empoderamento dos povos afro-ameríndios, para cantarmos com Maria: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador...”. (Lc 1,46).

O profeta Amós nos faz recordar o empenho da Igreja, na redemocratização do Brasil e na luta constante pela cidadania plenamente participativa, em vista do bem comum, sem prescindir da sua missão evangelizadora. O “comprar os infelizes por dinheiro e os pobres por um par de sandálias” (Am 8,6), evoca a Lei 9.840 de 1997, de iniciativa popular Contra corrupção eleitoral, a compra de voto, que diz: “Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta Lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de mil a cinqüenta mil Ufir, e cassação do registro ou do diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64, de 18 de maio de 1990." (Art. 41)

Digno de nota, também em favor do bem comum, cortando na raiz o mal do aproveitamento para si, do que é de todos, e da proibição de candidatar-se os que foram condenados por um colegiado da justiça. A Lei da Ficha Limpa, como ficou conhecida, pune os infratores e os tornam inelegíveis. As infrações são as seguintes: “A punição de inelegibilidade é aplicada aos infratores dos seguintes crimes: contra a economia popular, a fé pública, a administração pública e o patrimônio público; contra o patrimônio privado, o sistema financeiro, o mercado de capitais e os previstos na lei que regula a falência; contra o meio ambiente e a saúde pública; eleitorais para os quais a lei determine a pena de prisão; de abuso de autoridade, nos casos em que houver condenação à perda do cargo ou à inabilitação para o exercício de função pública; de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores; de tráfico de entorpecentes e drogas afins, racismo, tortura, terrorismo e hediondos; de redução à condição análoga à de escravo; contra a vida e a dignidade sexual; e delitos praticados por organização criminosa, quadrilha ou bando”.

Ainda: “A Lei da Ficha Limpa também condena os candidatos que tiverem suas contas, relativas ao exercício de cargos ou funções públicas, rejeitadas por irregularidade insanável que configure improbidade administrativa. Encontram-se na mesma condição, os detentores de cargos públicos que beneficiarem a si ou a terceiros através de abuso do poder econômico ou político”.