Palavra do Pastor
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III Theotokos - Reflexão sobre o Tema

Magnificat: o canto de Maria[1] - Lc 1,46-47

 

Por Pe. Flavio Colins
Exegeta e Prof. do IESMA (Instituto de Estudos superiores do Maranhão)

 

Então Maria disse: “A minh’alma engradece o Senhor, e meu Espírito exulta em Deus meu Salvador”

Estas palavras abrem o hino bíblico conhecido na tradição cristã como “Magnificat” (Lc 1,46-55), tradução latina do verbo grego megalynei (engradece). Trata-se do canto de Maria, da sua explosão de alegria depois das palavras de Isabel (Lc 1,39-45) que a havia saudado como a “Bendita entre as mulheres” porque trazia no ventre o Fruto Bendito da humanidade. Maria é, segundo Isabel, a Mãe do Senhor, a “Bem aventurada que acreditou”.

Este gênero literário chamado hino é muito comum no Antigo Testamento e também há muitos no Novo Testamento (no Evangelho de Lucas, nas cartas de Paulo, no Apocalipse, etc.). Eles têm uma estrutura constante: introdução, corpo e conclusão.

No Magnificat encontramos a seguinte estrutura:

  • Uma introdução (Lc 1, 46-47) louvando a Deus;
  • O corpo do hino (Lc 1, 49-53) listando os motivos do louvor. Os motivos do louvor incluem os feitos de Deus por Israel ou por Maria mesmo e os seus atributos
  • A conclusão (Lc 1,54-55) que recapitula alguns dos motivos do louvor!

O Magnificat ocupa a parte central do trítico de hinos presente no Evangelho da infância de Jesus segundo Lucas. Além do canto de Maria, temos o canto de Simeão (nunc dimittis) e o canto de Zacarias (Benedictus). Há ainda o pequeno hino dos Anjos, Glória a Deus no mais alto dos céus...

  1. Pano de fundo do Magnificat

O canto de Maria é recheado de passagens bíblicas do Antigo Testamento e há uma relação muito próxima com o Cântico de Ana em 1Sm 2 onde ela entoa um canto de louvor pelo nascimento de Samuel. Ana, agradecendo a Deus porque ouviu o seu clamor (1Sm 1), entoa um hino cujas palavras se ligam diretamente às palavras de Maria. Na verdade, devemos dizer que o Magnificat se inspira nas palavras de Ana e em outras passagens como o Salmo 35,9 e o profeta Habacuque 3,18, para falar só das duas primeiras frases do canto de Maria.
Para compreender bem o canto de Maria e, diria, para rezá-lo bem é necessário remontar ao seu coração, ao seu contexto. Na espiritualidade bíblica há uma expressão muito forte conhecida como os ‘anawîm, traduzida como os “pobres do Senhor (Yahweh). Estes eram certamente pobres num nível social. Lucas, de fato, na sua teologia é muito sensível à marginalização e ao sofrimento dos pobres. Contudo, a pobreza bíblica é um conceito “simbólico”, tem a capacidade de reunir em si muitos significados, dimensões diferentes.

Quem é, então, este pobre? O pobre é o humilde, aquele que está doente, que é oprimido, aquele que é fraco... É o órfão, a viúva; é o oposto do rico e do potente, mas é, sobretudo, aquele que põe sua confiança no Senhor e não na força do homem, no orgulho e na presunção, no ídolo do dinheiro. Podemos encontrar sinais destes pobres no livro dos Atos: At 2,43-47 e At 4,32-37.
Hoje a Igreja cantando o Magnificat, mais de vinte séculos depois, repete uma única, idêntica e contínua oração que exalta o triunfo de Deus não através da potência das manobras políticas ou da força militar e econômica, mas através dos simples, dos pobres, dos esquecidos...

Não à toa Maria diz no seu canto que Deus olhou para a tapéinôsis (a “pobreza”, “pequenez”, “humildade”) de sua serva. A verdadeira oração cristã se deve alimentar da Bíblia, como fez Maria.

  1. Estrutura

A estrutura, como dissemos acima, é aquela clássica dos hinos bíblicos.

  • Parte-se de uma introdução (Lc 1,46-47), segue o corpo do hino, iniciando com um “porque” (em grego, hoti) característico do gênero (vv. 48.49) e destinado a precisar a razão do louvor narrativo. Há duas estrofes, cada uma selada com o tema da misericórdia de Deus (vv. 50 e 54).
  • A primeira estrofe, vv. 48-50, contrasta Deus onipotente e as suas ações gloriosas à “pobreza” da sua serva Maria;
  • A segunda, vv. 51-55, elenca sete ações salvíficas de Deus (manifestou a força de seu braço, dispersou os orgulhosos; derrubou os poderosos; exaltou os humildes; cumulou de bens os famintos; despediu ricos: socorreu Israel) que evidenciam um contraste (oposição) entre Deus e os orgulhosos, os ricos, os potentes.
  1. Conteúdo

O primeiro movimento do canto é totalmente “pessoal”, gira ao redor do “eu” de Maria: “minha alma”, “meu espírito”. O Magnificat se abre com uma explosão de alegria que proclama tudo o que Deus lhe deu, exatamente como acontecia nos salmos (34,4; 35,9; Hb 3,18; Eclo 51,1). Floresce, assim, a felicidade da fé, o estupor da contemplação, a paz do doar-se. A pessoa inteira se transforma em louvor, tornando-se, para usar as palavras de Paulo: “sacrifício vivo, Santo e agradável, culto espiritual” (Rm 12,1).

As expressões alma e espírito (psychê e pneuma) significam aqui a mesma coisa, constituem a pessoa na sua totalidade, o mais profundo do seu ser. Não é apenas o reconhecimento intelectual do que Deus fez por ela, pelo seu povo e pela humanidade. A totalidade do seu ser - mente, coração, corpo - experimenta a misericórdia, a bondade e onipotência de Deus e não pode conter-se. Por isso, explode de alegria num canto de louvor!

O segundo movimento do hino põe em evidência um dos componentes fundamentais presentes nas Sagradas Escrituras. Deus privilegia o pequeno e o último; a sua escolha descarta aquilo que aparece na história humana como potência, sucesso, riqueza. É esta a lógica do próprio Cristo nascido de Maria, um Messias que não entra no mundo de modo fantástico, nascendo de uma rainha esposa de um rei, mas entra na pobreza e de uma mulher pobre, numa família humilde, aquela de José e Maria.

No Magnificat, potentes e humildes, famintos e ricos, orgulhosos e fiéis se confrontam, mas Deus já fez a sua escolha. Ele está, como em toda a Bíblia, do lado dos pobres e a estes ele dirige uma palavra de acolhida: “Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e vos darei repouso” (Mt 11,28).

Maria é a primeira desta fila de “pobres do Senhor” e nos convida a sustentar, a ajudar, a acolher estes sofredores e humildes, como fez o seu Filho com os pobres do seu tempo.

No canto de Maria há também uma forte esperança na ação de Deus, há a convicção que o Senhor Onipotente transformará a história humana. Isso aparece claro nos contrastes potentes/humildes, famintos/ricos, orgulhosos/fiéis. O destino destas duas classes são bem diferentes agora; mas Deus opera um lento, porém, constante projeto de transformação e até inversão desta situação. Aliás, Maria canta esta ação já realizada com a palavra grega megalynei (magnifica). Há, portanto, na história algo de já cumprido naquela direção e é a ressurreição de Cristo que abre o novo destino dos pobres. Mas esta também, a constante escolha de Deus e que, portanto, acontecerá também agora, como no passado.

A nossa oração, como aquela de Maria, deve pedir o advento daquele reino e deve nos ver do lado dos humildes, os pobres, os tementes a Deus.

O Magnificat nos ensina ainda que a nossa oração deve louvar “as grandes coisas” feitas por Deus, os atos salvífico do Senhor, a sua fidelidade, a sua Palavra eficaz, os seus atributos fundamentais que Maria elenca na trilogia da potência, da santidade, da misericórdia. Maria recorda que a Aliança feita com Abraão, elevada a pacto no Sinai foi selada para sempre na comunhão do sangue de Cristo, tornada nele nova aliança.

Maria interpreta o sentido da própria vida partindo da experiência de Israel e da Palavra que Deus revelou a este povo nas Sagradas Escrituras. Por isso ela, porta-voz dos pobres, canta o que Deus fez nela, fez e faz no seu povo e quer fazer a toda a humanidade. O seu Magnificat com razão é uma explosão de alegria num grande louvor como resposta de amor às grandes obras do Senhor!

  1. Bibliografia

Nestle-Aland., Novum Testamentum Graece, Deustch Bibelgesellschaft, Stuttgart, 1993

Brown R. E., The Birth of the Messiah (o Nascimento do Messias), New York: Doubleday, 1993

Ravasi G., L’albero de Maria, Milano: San Paolo, 1993

BIBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2003.

 


[1] Pequeno comentário bíblico sobre o Magnificat para a diocese de Viana a pedido de Dom Sebastião Duarte para realização do Kairós. Julho de 2015. Pe. Flávio Marques Colins, arquidiocese de São Luis.