Palavra do Pastor
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Aos Leigos e Leigas da Diocese de Viana

Aos Leigos e às Leigas da diocese de Viana

Por ocasião da Festa de Cristo Rei

“Pela graça de Deus sou aquilo que sou: Leigo na Igreja, membro do corpo de Cristo Jesus”, assim cantavam as comunidades eclesiais de base para suscitar no coração dos fiéis católicos a pertença consciente à Igreja de Jesus Cristo, e no refrão se reforçava categoricamente o sonho de uma Igreja renovada pela ação do Espírito Santo, onde todos os batizados, descobrindo a própria vocação de povo de Deus, vivessem os ventos do Concílio Vaticano II: “Nem que demore, leigo na Igreja, povo de Deus hei de ser assim seja”.

O termo leigo aparece na literatura cristã no final do primeiro século, usado por São Clemente, cuja festa litúrgica hoje celebramos, 23 de novembro, o terceiro sucessor do Apóstolo Pedro, na cátedra de Roma, em carta enviada aos cristãos de Corinto, a I Carta de Clemente aos Coríntios. Ele estabelecendo um paralelo entre a hierarquia levítica e aquela eclesiástica, e se referindo especialmente à liturgia, diz: “Ao sumo sacerdote foram confiados ofícios litúrgicos particulares; aos sacerdotes foi designado seu lugar particular; e aos levitas foram impostos serviços particulares. O leigo está ligado aos preceitos leigos”. (I Clemente aos Coríntios 40,5).

Continuando sua reflexão, o bispo de Roma afirma que “cada um de nós, no seu próprio lugar, agradeça a Deus, agindo com boa consciência, com dignidade, sem violar as regras que foram determinadas para a sua função”. (41,1). Mais adiante, tratando sobre a sucessão apostólica, depois de dizer: “Os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo o Evangelho que nos pregaram. Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo, portanto, vem de Deus, e os apóstolos vêm de Cristo”, assevera que os apóstolos “pregavam pelos campos e cidades, e aí produziam suas primícias, provando-as pelo Espírito, a fim de instituir com elas bispos e diáconos dos futuros fiéis”. (42,4). Os fiéis aqui não são bispos nem diáconos, mas constituem também o povo de Deus.

O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Sobre a Igreja, Lumen Gentium (LG), diz que “Denominam-se leigos todos os fiéis que não pertencem às ordens sagradas, nem são religiosos reconhecidos pela Igreja. São, pois, os fiéis batizados, incorporados a Cristo, membros do povo de Deus, participantes da função sacerdotal, profética e régia de Cristo, que tomam parte no cumprimento da missão de todo o povo cristão, na Igreja e no mundo. (...) A vocação própria dos leigos é administrar e ordenar as coisas temporais, em busca do reino de Deus. Vivem, pois, no mundo, isto é, em todas as profissões e trabalhos, nas condições comuns da vida familiar e social, que constituem a trama da existência. São aí chamados por Deus, como leigos, a viver segundo o espírito do Evangelho, como fermento de santificação no seio do mundo, brilhando em sua própria vida pelo testemunho da fé, da esperança e do amor, de maneira a manifestar Cristo a todos os homens”. (IV,31)

A LG afirma ainda: “A ação de todos os fiéis em vista da edificação do corpo de Cristo é comum a todos. A distinção estabelecida pelo Senhor entre os ministros sagrados e os outros membros do povo de Deus exige a união, pois, vincula uns aos outros, pastores e fiéis”.(IV,32). “O apostolado dos leigos é participação na missão salvadora da Igreja. Todos estão qualificados pelo Senhor ao exercício desse apostolado, através do batismo e da confirmação. Os leigos são especialmente chamados a tornar a Igreja presente e ativa nos lugares e nas circunstâncias onde somente por eles pode atuar o sal da terra”. (IV,33).

O Concílio exige que “Os pastores, por sua vez, reconheçam e promovam a dignidade e a responsabilidade dos leigos na Igreja. Recorram com alegria a seus prudentes conselhos. Confiem-lhes serviços para o bem da Igreja, deixando-lhes espaço e liberdade para agir. Mais do que isso, estimulem-nos a tomarem iniciativa. Considerem com amor paterno e grande atenção em Cristo as iniciativas dos fiéis, suas expectativas e seus desejos”. (LG IV, 37). “Bispos, párocos e sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, tenham bem presente que o exercício do apostolado é direito e dever de todos os fiéis, clérigos ou leigos, e que os leigos como tais dão sua contribuição específica à edificação da Igreja. Por isso, devem cooperar fraternamente com os leigos na Igreja e em benefício da Igreja, cuidando especialmente dos leigos e de seu trabalho apostólico”. (LG V, 25). “Os religiosos, mulheres e homens, apreciem o trabalho apostólico dos leigos. Segundo o espírito de sua congregação, empenhem-se com ardor na promoção das obras do laicato, sustentando, ajudando e completando o trabalho sacerdotal”.

Os Padres Conciliares, incentivam particularmente os presbíteros a valorizarem o serviço laical na Igreja, ao dizer: “Os padres devem reconhecer a dignidade dos leigos e deixá-los desempenhar o papel que lhes compete na missão da Igreja”. Que eles, “apóiem e prestigiem as justas liberdades, a que todos têm direito na sociedade civil. Escutem os leigos com atenção, acolhendo fraternalmente as suas considerações e lhes reconhecendo a experiência e a competência que têm, nos diversos setores da vida humana, para que possam todos juntos ser sensíveis aos sinais dos tempos.(...) Confiem também aos leigos diversos encargos a serviço da Igreja, dando-lhes liberdade e deixando-lhes o espaço necessário para agir, de tal modo que se sintam livres inclusive para tomar iniciativas quando as julgam oportunas. Cuidem especialmente dos que se afastaram da prática sacramental, ou mesmo da fé, junto aos quais saibam desempenhar o papel do bom pastor...não esqueçam os irmãos que não vivem em plena comunhão conosco”. (PO II,9)

Quanto aos leigos, diz que “Os fiéis, por sua vez, sintam-se obrigados a acolher os seus padres com amor filial, como pastores e pais. Participem de suas preocupações e os auxiliem pela oração e pela ação, quanto possível, para que possam superar as dificuldades e cumprir cada vez melhor os seus deveres”. (PO II,9). “Como todos os fiéis, os leigos devem obedecer cristã e prontamente a tudo que os pastores sagrados, representantes de Cristo, estabelecem, como mestres e dirigentes da Igreja, seguindo assim o exemplo de Cristo que, por sua obediência até a morte, abriu o caminho da liberdade dos filhos de Deus a todos os homens. Não esqueçam de recomendar a Deus os seus superiores, a fim de que os que devem vigiar sobre as nossas almas para dar contas a Deus façam-no com alegria e não na aflição” (cf. Hb 13, 17). “Como todos os fiéis, os leigos têm o direito de receber generosamente dos pastores sagrados os bens espirituais da Igreja, em particular os auxílios da palavra de Deus e dos sacramentos. De acordo com o saber, a competência e o lugar que ocupam na sociedade, têm o direito e às vezes até o dever de dar a sua opinião no que diz respeito ao bem da Igreja. Que isto seja feito, se possível, pelas instituições estabelecidas pela Igreja, sempre, porém, na verdade, com coragem e prudência, com reverência e caridade para com aqueles que agem em nome de Cristo, em virtude do ministério sagrado” (LG IV, 37).

Os bispos da América Latina e Caribe reunidos em Confências desde Medelin têm reconhecido a presença primordial de leigos e leigas na missão da Igreja, em todos os sentidos. Puebla por exemplo afirmava que “queremos incentivar a tantos leigos que, mediante o seu testemunho de dedicação cristã, contribuem para o cumprimento da tarefa evangelizadora e para apresentar a fisionomia duma Igreja comprometida com a promoção da justiça em nossos povos”(n.777). Em Santo Domingos os fiéis leigos e leigas tiveram lugar preponderante, como protagonistas da missão da Igreja, na América Latina e no Caribe(SD 97). Foi a conferência que mais destacou a missão do leigo e da leiga nas comunidades, nos movimentos, pastorais e na ação social em particular. Mas Aparecida faz saber que a realidade “exige, por parte dos pastores, maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o ‘ser’ e o ‘fazer’ do leigo na Igreja, que por seu Batismo e sua Confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo” (n. 213)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), desde o início de suas Assembléias tem dado aos fiéis leigos e leigas o lugar que lhes é devido na Igreja. As Novas Diretrizes, 2011-2015, tem incentivado a participação ativa dos leigos(as) em todos os níveis da vida eclesial e social. Seja no exercício de ministérios confiados aos leigos (n. 63), com uma formação adequada que lhes ajude numa atuação mais eficaz também no mundo da política: “Incentive-se cada vez mais a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, promovendo-se formação permanente e ações concretas” (n.115). A participação ativa se dar ainda por direito e compromisso no discernimento, na tomada de decisões e na execução no planejamento pastoral, já que são protagonistas na missão. (nn.123 e 124).

Roguemos caríssimos irmãos e irmãs ao Senhor a fim de que Ele continue nos sendo propícios e suscitando cada vez mais em nós uma consciência de povo de Deus, como diz a I Carta de Pedro: “...vós que outrora não éreis povo, mas agora sois o Povo de Deus...” (2,10). Pois a nós todos bispo, presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, leigos e leigas nos foi confiada pelo sacerdócio comum  e pelo sacramento da ordem a missão de Evangelizar e, portanto, fazer discípulos e missonários do Senhor todos os povos. Fiat voluntas tua!