Lectio Patrum
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Quaresma - Por Pe. George Luis Amaral Muniz

Quaresma: da fragilidade do barro à condição “divina”!

Iniciar o caminho quaresmal como caminho que conduz, pela penitência, à alegria da Páscoa do Senhor, tem sempre um sentido novo e espiritual muito forte. O texto de Joel, "Rasgai o coração, e não as vestes! Voltai para Javé, vosso Deus, pois Ele é piedade e compaixão!" (Jl 2, 13), é cheio de simbólica realidade, que na sua beleza poética nos comove, mas isso tem que ir além, porque o texto sagrado “deve mover-nos”, fazer-nos passar de uma condição à outra, ou acaso isso não é justamente a meta à qual nos dirigimos: “Páscoa – Passagem?”

Para retornar a este tema, gostaria antes de mencionar um outro texto do rito da liturgia do início do tempo quaresmal. O texto sagrado ao qual me refiro é a formula simbólico-ritual: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar”(Gn 3, 19).

Nas duas situações, corremos o risco de fazer uma leitura apenas “ingênua ou técnica” dos textos sagrados, não conectando-os à nossa história concreta, que deve estar dissolvida, envolvida no “crer - celebrar - viver”. Portanto, lembrar da nossa condição adâmica, é ter presente que a liturgia deixa claro que sem o hálito de Deus (Gn 2, 7), o homem é simplesmente barro. A liturgia recorda ao homem, que viver em Deus e viver na comunidade eclesial seria impossível senão "à partir do Espírito de Deus". Por isso, "lembra-te da tua realidade de morte, de pó, oh, homem, e lança-te à uma nova condição,  lembra-te que Deus age na sua vida, soprando nas suas narinas e te concedendo vida"! Façamos o esforço mistagógico de compreender, que na liturgia quaresmal, se experimenta que o homem em Cristo, é capaz de não somente viver de coisas exteriores, ainda que  sejam essênciais à sua condição. O convite a rasgar o coração e não as vestes, revela uma imagem humana, que rompe a lógica do simplesmente humano para agir na “ilógica” condição de uma realidade que supera o homem. Somente é capaz de rasgar o coração, quem contempla um Deus-homem, sem aparência e beleza humana, pois vê refletida nesta condição a sua propria condição. É capaz de compreender que entre “a condição de morte e a condição de morte”, “do pó ao pó”, temos a possibilidade de experimentar a medicina que brota das feridas de um Deus loucamente apaixonado pelo ser humano, no qual ele é presente de modo encarnado e glorificado. Retornar para o Senhor, é romper com a lógica da morte que nos limita, é fazer Páscoa, entrando na realidade ilógica da festa, ainda que tenhamos que experimentar as lágrimas do luto. Voltar ao Senhor, com um coração rasgado e ferido, é com ele gritar para o pecado e a morte: “Onde está sua Vitoria?”.

Portanto, a palavra de Deus nos recorda de nossa fragilidade, também de nossa morte, que é a sua forma mais extrema. Frente ao medo inato do fim, e ainda mais no contexto de uma cultura que, de diversos modos, tende a censurar a realidade e a experiência humana de morrer, a liturgia quaresmal, por um lado, nos lembra da morte e nos convida ao realismo e à sabedoria, mas, por outro lado, exorta-nos sobretudo a compreender e a viver na novidade inesperada que a fé cristã irradia na realidade da própria morteO homem é pó e ao pó retornará, mas é pó precioso aos olhos de Deus, porque Deus criou o homem destinando-o à imortalidade. Assim, a fórmula litúrgica "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás" encontra a plenitude de seu significado em referência ao novo Adão, Cristo. Também o Senhor Jesus quis livremente compartilhar com todos os homens o destino da fragilidade, especialmente através de sua morte na cruz; mas é esta morte, cheia do Seu amor pelo Pai e pela humanidade, que se torna caminho para a gloriosa ressurreição, através do qual Cristo se tornou uma fonte de graça dada àqueles que crêem n'Ele e se tornam participantes de sua própria vida divina. Esta vida que não terá fim já está em curso na fase terrena da existência, mas será levada a termo após "a ressurreição da carne" enquanto Ilario de Poitiers diz a “glorificação da carne”. Com a imposição das cinzas, renovamos o nosso compromisso de seguir Jesus, de nos deixar ser transformado por seu mistério pascal, para vencer o mal e fazer o bem, para fazer morrer o nosso "homem velho" ligado ao pecado e fazer nascer o "homem novo" transformado pela graça de Deus.

Caros irmãos e amigos de toda diocese de Viana, como cristãos tenhamos a coragem de palpar nossa realidade mortal, constituídos do pó de nossas misérias, para resplandecer com Cristo na condição de "Novas criaturas". O mundo precisa da nossa santidade e da nossa alegria, pois cabe a nós como “homens de Deus e homens do nosso tempo”, gritar hoje, não com corações e vestes rasgadas, mas com o coração em Deus. 

Santo caminho quaresmal a todos!

Pe. George Luis Amaral Muniz

Estudante de teologia patristica e história da teologia – Gregoriana - Roma