Mensagem do Bispo › 17/10/2019

Amados, batizados e enviados

 

“Batizados e enviados” é tema que Igreja escolheu para o Mês Missionário Extraordinário. Contudo me pediram que eu escrevesse um texto acrescentando a palavra amados, assim vamos refletir sobre o tema amados, batizados e enviados.

De fato, a vida divina que recebemos em nosso batismo é fruto do amor de Deus por cada um de nós. Portanto antes de sermos batizados fomos amados por Deus. Ele nos amou primeiro (1Jo 4,19).

Amor de Deus é uma entrega generosa ao outro, sem condições, sem limites. É despojamento de si mesmo: “Deus ama o mundo” é uma afirmação que situa Deus ao seu amor como uma realidade fundadora. A existência dos seres fala-nos do amor de Deus. O homem é fruto de uma decisão providencial de Deus, que quer o melhor para ele. Ainda que todas as coisas criadas existam com uma consistência que podemos chamar meramente natural, não deixa de ser verdade o chamado constante ao amor com que foram pensadas e queridas por Deus. Assim as criaturas, criadas no amor, são constantemente chamadas ao amor.

Deus criou todas as coisas por amor e fez o homem à sua imagen e semelhança a fim de que ese possa participar na sua felicidade. O Batismo expressa o propósito de intensificar cada vez mais essa relação de amor com o criador.

“Deus é Amor” (1 Jo 4, 8), nos disse São João. O Amor é a forma perfeita da relação. Ele nos convida a entrar cada vez mais intensamente em sua vida de amor, isto se dá em nós pelo batismo.

No momento do batismo, segundo a narração de Lucas, “enquanto Jesus orava, o céu se abriu, desceu sobre ele o Espírito Santo em figura corpórea de pomba e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu benquerer”. O que aconteceu com o Senhor naquele dia, ocorre com o cristão no dia do seu Batismo. O Céu que tinha sido fechado após o pecado dos nossos primeiros pais é reaberto para cada homem no dia do seu Batismo. Então o Espírito Santo vem ao seu encontro, fazendo-o membro da Igreja, o corpo de Cristo e lhe é dirigida a Palavra do Pai: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”.

Batismo é mergulho e participação no mistério de Cristo morto e ressuscitado! Quando dizemos que o batismo nos faz filhos de Deus pela graça, entendemos que a vida divina volta a circular em nós. É esse o sentido do nascer de novo de que Cristo fala a Nicodemos: “Para entrar no reino dos céus, é preciso nascer de novo. Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no reino de Deus. Quem nasce da carne é carne, e quem nasce do Espírito é espírito” (Jo 3,5-6). Na continuidade da conversa com Nicodemos, Jesus deixa claro que fala da transcendência humana — a vida de Deus em nós, a imanência divina que, por seu sopro, faz de nós, humanos, partícipes da divindade criadora.

Como ensina o catecismo da Igreja: “O santo batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que abre o acesso aos demais sacramentos. Pelo batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus, tornamo-nos membros de Cristo, e somos incorporados à Igreja e feitos participantes de sua missão” (CIC 1213).

A igreja é a expressão desse amor. Desse modo o amor é a marca com a qual deve ser identificada a comunidade de Jesus Cristo. Os discípulos de Jesus Cristo são identificados como tais, pela evidência do amor: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos; se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13.35). Na ótica de João amamos a Deus, quando de fato, amamos aquele a quem vemos (aquele a quem vemos – possivelmente refere-se ao irmão na fé). (I Jo 4.20,21).

Amar é também um caminho, é o jeito de ser, o modus vivendis do cristão. Logo, a Igreja ama como refluxo do amor recebido de Deus. Amar deve fazer parte natural da Igreja, a expressão da maturidade cristã, o mais evidente referencial de espiritualidade. Uma vez que amamos a Deus, naturalmente obedecemos ao Seu mandamento de amar, e por desfrutarmos de Sua natureza, amamos incondicionalmente como conseqüência do ser cristão. Assim como uma planta, naturalmente produz frutos da sua espécie o cristão produz o fruto do Espírito – “Amor, paz, alegria, bondade, fidelidade, mansidão…” (Gl 5.20-22).

O princípio da unidade do povo de Deus está fundamentado no amor. Assim sendo, a Igreja deve ser internamente a comunidade da comunhão, afetividade, fraternidade, o espaço de pessoas acolhedoras, misericordiosas; a expressão mais explícita de um ambiente onde as pessoas possam se sentir amadas por Deus, tocadas por Ele, através da Sua encarnação no Corpo de Cristo. Testemunha do amor de Deus ao mundo depende da unidade, em amor, da Igreja. Jesus disse: “Que eles sejam um para que o mundo saiba que tu me enviaste…” (Jo 17.23,24).

A revelação de Deus amor se dá em Jesus Cristo. Ele escolhe e chama discípulos para estar com Ele, formar comunidade na unidade com o Pai e o Espírito e viver a missão de Deus até os confins da terra. Todos os que seguem Jesus, pelo batismo, em qualquer estado de vida, laical, consagrada ou ordenada, recebem do Mestre a ordem de continuar a mesma missão como Igreja.

Sendo a Igreja uma comunidade de amor, como conseqüência de sua própria natureza seria contraditório viver para dentro de si mesma e não para os “de fora”. O Cons. Vat. II, Ad Gentes número 2, afirma que a “Igreja peregrina é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e do Espírito santo, segundo o desígnio de Deus Pai”.  Na sua essência, a Igreja é missionária. Não podemos guardar para nós as palavras de vida eterna, que recebemos no encontro com Jesus Cristo. A missão da Igreja não pode ser considerada como realidade facultativa ou suplementar da vida eclesial.

Os bispos na Conferência de Aparecida lembraram: “O discípulo, à medida que conhece e ama a seu Senhor, experimenta a necessidade de compartilhar com outros a sua alegria de ser enviado, de ir ao mundo para anunciar Jesus Cristo, morto e ressuscitado, a fazer realidade o amor e o serviço na pessoa dos mais necessitados, em uma palavra, a construir o Reino de Deus. A missão é inseparável do discipulado, o qual não deve ser entendido como uma etapa posterior à formação, ainda que ela seja realizada de diversas maneiras de acordo com a própria vocação e ao momento da maturidade humana e cristã em que se encontre a pessoa. (DA, 278 e).

Todo cristão é um missionário pela força do seu batismo e todo discípulo deve escutar a voz do Mestre “Ide e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28, 16). O Papa Francisco na Evangelii Gaudium afirma: O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se.  E G, 9.

“Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento”.

“A vida alcança-se e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isto é, definitivamente, a missão”. EG, 10.

Quem encontrou o Cristo, se converte em testemunha e missionário.‘Os discípulos missionários de Jesus Cristo têm “a tarefa prioritária de dar testemunho do amor a Deus e ao próximo com obras concretas” (DA 386).

Isso tudo significa prolongar em nosso tempo a missão de Jesus:

– É com o nosso coração que Jesus continua a amar os publicanos e os pecadores do nosso tempo;

– É com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e desanimados;

– É com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher os imigrantes que fogem da miséria e da degradação;

– É com as nossas mãos que Jesus continua a quebrar as cadeias que prendem os escravizados e oprimidos;

– É com os nossos pés que Jesus continua a ir ao encontro de cada irmão que está sozinho e abandonado;

– É com a nossa solidariedade que Jesus continua a alimentar as multidões famintas do mundo e a dar medicamentos e cultura àqueles que nada têm…

Que a vivência desse mês Missionário extraordinário reanime nossas paróquias e comunidades e nos leve a fazer a experiência do amor de deus na alegria do Evangelho. Porque “conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp 29).

 

Dom Evaldo Carvalho dos Santos, CM

Bispo de Viana – MA

 

 

 

 

Imprimir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *