Artigos › 06/12/2018

Qual a força da Oração?

Aproxima-se o Natal e nós entramos no tempo do Advento que na liturgia da Igreja católica convida à preparação para celebrar este evento, preparação através da oração principalmente. A modernidade autônoma e crítica, com seu secularismo tentou desfazer-se do Transcendente. A fé seria uma alienação (K. Marx), uma projeção abstrata e alienada do ser humano (Feuerbach) e até mesmo uma manifestação de doença psíquica (Freud). A mentalidade moderna que supervaloriza a utilidade das coisas, se pergunta para que serve a fé, e a oração como uma de suas manifestações privilegiadas.

O sonho de uma emancipação total impele o ser humano a querer uma realidade em que a razão e o cientismo dominem soberanos, sem dar nenhum espaço ao simbólico e ao mistério. A emancipação da religião e, em última análise, a emancipação de Deus é o sonho que perpassa os processos de transformação da história recente a partir do Iluminismo e da revolução francesa. Deus se tornou descartável e assim neste tempo de “noite do mundo” (Heidegger), a indiferença para com a ideia de Deus e o niilismo em relação à ideia do Homem (paixão inútil segundo Sartre), se tornariam como que “virtudes” a serem cultivadas.

A pós-modernidade, porém, reage aos excessos da razão e afirma a Transcendência, a presença de Deus, mesmo escorregando às vezes para o panteísmo, não sabendo distinguir as realidades de criador e criatura. As consciências bem orientadas percebem que na perspectiva da fé, Deus se faz presente apesar do sofrimento do mundo. Ele está presente tanto nas coisas risíveis como nas dramáticas e tristes. E no silêncio de Deus está o espaço para o exercício difícil da liberdade da criatura humana e jamais o descaso ou a ausência Dele.

Faço a reflexão acima, a respeito dos inúmeros artigos que vejo estampados em revistas e jornais, referentes à fé relacionada à saúde. Cresce de fato, a abordagem científica apontando os benefícios da fé para pacientes de diversas doenças. Vários médicos buscam comprovação científica para a relação entre espiritualidade e saúde. Seria um reencontro entre Deus e a medicina, uma das áreas da ciência onde mais se procurou separar o corpo do que se chamou “alma”, inexistente para vastas áreas de cientistas?

O fato é que um dos nomes mais famosos da medicina contemporânea, Dr. Kenneth Cooper, em seu livro editado pela Record e intitulado “É melhor acreditar”, no qual trata da importância da fé para a saúde e a boa forma, afirma: “Hoje em dia, diversos pesquisadores comprovaram que o fato de manter a mente calma e equilibrada pela confiança num sólido sistema pessoal de crença, traz um efeito salutar para o corpo” (p. 53). A propósito do título do seu livro, ele afirma que o exercício físico é indispensável á saúde, mas é melhor ainda acreditar e recomenda a oração e meditação que ele mesmo diz praticar.

Há hoje sem dúvida uma sede do transcendente, uma busca da beleza, da harmonia, enfim, do sentido da vida. Busca-se uma experiência válida, não alienante e fundante de Deus. A verdadeira experiência de fé não aliena a pessoa, mas a integra nas suas dimensões pessoal, relacionamento com os outros e compromisso com a sociedade. Como expressão da fé religiosa, a oração não pode ser algo de mágico que faz Deus intervir em momentos precisos. Ela nos potencializa a ser doadores e receptores do mais profundo sentido da vida, um sentido de Deus que habita o mais íntimo do ser humano.

A verdadeira oração acorda em nós a consciência de querermos ser mais nós mesmos e capazes de servir aos outros. Ela nos faz agentes de vida e amor, e por isso tem força para conferir autenticidade à fé de uma pessoa; fé que é imprescindível para a realização plena, dado que a dimensão religiosa é inata no ser humana, e precisa ser desenvolvida de alguma forma.

Pode-se dizer que muitas pessoas ficaram doentes por se envolverem de forma distorcida com religião, mas hoje se vê também o reverso da medalha: a falta de religião, em muitas pessoas, produziu doenças psíquicas.

A sanidade psíquica ajuda a “curar” a religião de suas doenças, mas se descobre hoje que a religião tem também força curativa.

Tudo isto pode parecer novidade, mas não é, já dizia o famoso personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão:veredas: “O que mais penso, testo e explico; todo-o mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião; para se desendoidecer, desendoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma…” E acrescente-se: também do corpo.

Por Dom Pedro Carlos Cipollini – Bispo Diocesano de Santo André

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