Sabor da Palavra
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EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO: EM NOME DO AMOR

Eu te amo. Amo esse povo. Amo a minha escola. Amo meu serviço. Poderíamos produzir várias laudas só com “eu te amo...” De uma maneira muito simples é possível perceber uma certa banalização do amor, ao menos do significado de amar. Mesmo no seio do cristianismo atual não é difícil encontrar quem ame coisas e pessoas da mesma maneira. Afinal, por que isso? Muitas respostas são plausíveis a esta pergunta, dentre elas a que parece mais acertada é aquela que dá conta de uma compreensão deturpada e superficial do Mandamento Novo.

Na noite da Quinta-feira Santa celebramos de maneira ritual e anamnética, entre outras coisas, a Instituição do Mandamento Novo: o amai-vos uns aos outros como eu vos amei. O Amor não é invenção cristã, Jesus Cristo apenas utilizou de um conceito conhecido pelos seus ouvintes. (Desde o Velho Testamento, encontramos diversas manifestações de amor, principalmente do amor de Deus para com o seu povo e quatro séculos antes de Jesus Cristo começou-se a praticar um certo “amor a sabedoria”: filos sophia, daí filosofia). O que ele fez foi aprimorar e contextualizar o conceito, tornando-o compreensível e praticável.

A novidade trazida pelo Filho de Deus e propagada pelo cristianismo foi a maneira radical de viver uma modalidade de amor chamada ágape. É exatamente isto que está por trás do “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei". (Jo. 15,12) e de “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.(Jo. 15, 17). Esta ordem, que ultrapassa os limites da imposição pura e simples, é na verdade um programa de vida, que se constituiu a partir do exemplo do próprio Cristo e que os cristão recebem como missão: “permanecei no meu amor. Se guardares os meu mandamentos, permanecereis no meu amor...” A prática do amor fraterno é na verdade a expansão do amor de Cristo no mundo, realizada por seus seguidores.  Que amor é esse? Como vivê-lo? Lendo e rezando os Evangelho eles nos permitem perceber duas dimensões bem definidas: é um amor universal, amor à pessoa, não amor a pessoas. Neste sentido não interessa se é Maria, Jorge, Lúcia, Arnaldo..., não interessa a cultura, posições sociais, grau de instrução, muito menos a capacidade de retribuir o amor dispensado. O que interessa é amar de maneira desinteressada e radical, ponto e basta. Foi o que Jesus fez com sua Encarnação e Sacrifício na Cruz. Tudo muito bonito, mas esta maneira de compreender o amor ágape nos impõe uma dificuldade: Ela pode levar as pessoas a compreender o amor simplesmente teórico, de maneira platônica, o que conduziria ao comodismo e ao amor retórico. Ou ainda ao desejo de amar apenas por atos de heroísmos, distanciados da realidade cotidiana. Diante dessa possibilidade apresenta-se a outra dimensão do amor: aquela que transporta o ser humano para as realidades individuais e coletivas que estão ao seu redor e fazer a diferença, contribuído para a transformação positiva da vida dos seus semelhantes, a partir do exemplo de Jesus Cristo, que amou, acolheu,  curou, resgatou vidas, perdoou. Em fim, promoveu a dignidade humana, todavia, sem acepção de pessoas.

Os mártires do período inicial do cristianismo são sinais de como as primeiras comunidades compreenderam e se esforçaram para viver de acordo com este projeto de Jesus Cristo. Francisco de La Calle, em sua obra “A teologia do quarto Evangelho fala disso, dizendo: “No cristão histórico, está sucendendo a mesma realidade que no Jesus histórico. Ele realizou o amor de Deus, que o leva a morte, sendo obediente ao seu mandamento; aquele que tem de realizar o mesmo amor de Jesus – em que Deus se fez presente – sendo obediente aos seus preceitos”. E diz também “Na medida em o cristão está amando os  irmãos com o mesmo amor de Jesus, vai chegando ao conhecimento profundo do próprio Jesus e da sua qualidade de salvo” (CALLE, 1985. P. 125.) Os cristãos do nosso tempo precisam, portanto, aprender de Jesus Cristo e das primeiras comunidades, o que significa amar. As chamadas novas comunidades dão um exemplo desse comprometimento com os mais pobres e excluídos e são uma chamada de atenção para que muitos de nós façamos o nosso mea-culpa. Como o Pe. Zezinho diz: “amar como Jesus amou. Isso significa que a nossa missão é dar um novo significado para o amor e ajudar a criar no mundo a lógica do amor, que ultrapassa conceito e transforma vidas.

Que o Senhor nos ajude a amar de verdade, realizando o projeto de Jesus, como discípulos missionários do Mandamento Novo: O AMOR.
 

Texto: Nilton Lima
Diocese de Viana