Sabor da Palavra
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Uma amiga chamada constância

 

“Se perseverardes até o fim verás a glória de Deus”

Nosso mundo é marcado por um constante movimento de “mudar de ideia”, optar por novos horizontes. Por vezes, nos vemos diante de circunstâncias que nos fazem pensar se vale a pena levar adiante um trabalho difícil, uma situação desconforme com nossa vontade, ou ao menos desconforme com nossas expectativas. Por vezes não somos nós a buscar tais situações, mas elas nos alcançam e se prendem a nós em nosso dia a dia. Sempre diante delas devemos dar uma resposta: ir adiante ou mudar de rota.
Mudar de ideia, abandonar projetos falidos, trocar de rota por perceber que se está num caminho de demasiado risco ou mesmo equivocado, é uma atitude sempre positiva; e quando isso é fruto de discernimento, passa a ser necessário. Permanecer no caminho errado é prolongar a tristeza ou a possibilidade de frustração. E na verdade não fomos feitos para este tipo de vida. No entanto, a mudança de idéia pode ser devida a outros fatores que envolvem uma fraca capacidade de sonhar e projetar-se diante de um ideal, ou mesmo a ausência do proprio ideal.
Uma vida sem ideal é como uma viagem sem rota, por mais que se ande, que seja uma viagem maravilhosa, nunca se chega ao ponto de destino e isso simplesmente porque ele é inexistente. Um bom ideal, um forte motivo para viver e até mesmo para dedicar cada esforço é sempre louvável, mas o ideal não se realiza sem a constância. Por outro lado a constância só pode ocorrer onde existe o ideal. É a constância que conduz um ideal à sua realização, inclusive à plenitude de vida. Não existe constância onde não existe ideal. Todo homem deve ter um ideal de vida, deve escolhê-lo e buscar realizá-lo de acordo com o bem, não só como fim, mas também como meio..
Como virtude humana, a constância é acessível a todos. Não é simplesmente um dom do alto, mas algo que emerge de dentro da pessoa; e como todo talento, pode e deve ser cultivada e desenvolvida.
Para entender claramente a constância, pensemos numa viagem para um local muito belo e desejado há muito tempo; e no dia da viagem está chovendo na estrada, e os vidros do carro embaçam. O que fazer: Desistir? Mudar de rumo? Aguardar? Continuar? Tudo exige discernimento, é claro. Se ainda é possível ir adiante sem grandes riscos e possui habilidade suficiente para isso, o motorista deve decidir-se pela continuidade da viagem, ainda que em baixa velocidade, devido às situações adversas. Deve ir com muita cautela, deve respeitar o desafio; até mesmo parar e esperar a chuva passar – se for o caso –, mas desistir do ideal apenas por causa de uma chuva, que pode ser passageira, seria perder muito e as vezes sem chance de retomar mais tarde.
Todo homem busca a plenitude de seu ser. Isso é uma grande obra! E como toda grande obra, não é fruto de apenas entusiasmo. Todo caminho comporta obstáculos, e para vencê-los, não basta ter força e inteligência, ou mesmo audácia e destreza. Tudo isso sim, mas, acima de tudo, constância. Tem um provérbio que diz que “a inteligência natural pode ser dada a qualquer um, mas só é inteligente de verdade quem faz uso dela”. No dia a dia vemos que os frutos mais doces de nossa vida não são aqueles conquistados apenas por nossos talentos, mas pela constância que não nos deixou desistir de tais talentos diante dos obstáculos. Se diz ainda que “sorte é quando a preparação encontra a oportunidade” . Para muitas coisas em nossa vida teremos apenas uma oportunidade. Por isso, é bom ser constante, para se preparar bem e não perdê-la.
Não se constrói nada sem constância. Nossos ideais embebidos na constância adquirem uma força extraordinaria. Para ser feliz é preciso que nos esforcemos sempre, sem desanimar diante das situações desfavoráveis, mesmo sem motivação sensível, ainda se as pontes desabarem diante de nós, mesmo na cotidianidade dos acontecimentos, ou quando os obstáculos nos pareçam insuperáveis; sabendo sempre que nosso ideal maior é Cristo, em Quem tudo que é bom encontra o seu modelo, inclusive a constância. Afinal A alma só se alimenta daquilo que lhe traz alegria, nos lembra Santo Agostinho.
Deus os abençoe
Padre Xavier-CN